Quinta-feira, 2 de Agosto de 2007

VICIADA EM INFORMAÇÃO (Malu Fontes)





Vício em informação
Jornalista e professora universitária, Malu Fontes tem autêntica compulsão por notícias.

Por Neusa Andrade
neusa_nma@yahoo.com.br
Investigadores da literatura de ficção, como Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle e o Inspetor Maigret, de Georges Simenon, certamente ficariam perplexos com os relatos de uma investigação “cabeluda” no senso comum. Um desses casos complicados foi solucionado pela jornalista Malu Fontes, também professora, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA.
Dentre tantas experiências, na vida acadêmica ou profissional dessa jornalista, que há dezoito anos atua na área, formada pela Faculdade de Comunicação da UFBA, esta merece ser reportada: “Missão quase impossível”. Descobrir o paradeiro, o telefone e fotografar a garota que, em 1980, para entregar um barquinho de madeira, furou o bloqueio da segurança do papa João Paulo II, quando este visitava a Igreja dos Alagados, em Salvador.
Com o agravamento da doença do papa João Paulo II, em 1995, todas as mídias se reportavam à trajetória do pontífice. A agência de fotografia francesa, Gamma Press, a mesma que havia feito a foto da menina nos Alagados, em 1980, precisava de um jornalista no Brasil para identificar, localizar a garota e fotografá-la, na mesma igreja, antes da morte de João Paulo II, que era iminente. Malu nada sabia da garota.
O contato com a agência francesa foi feito no dia 1º de abril de 2005, por intermédio de um jornalista brasileiro que vive em Paris trabalhando para a Gamma e que lhe enviou, via e-mail, a foto da menina abraçada ao Papa. Comparando as investigações realizadas nos diversos filmes de Hitchcock e Holmes, esta história nada tinha de elementar com aquelas. Nesses, as pessoas têm nome, endereço e profissão. No caso investigado, nenhuma pista foi dada. Nem sequer o nome correto da garota a agência tinha. Talvez só indo buscar ajuda no tarô, nos búzios, nos orixás, nos santos, etc. Porém, uma boa jornalista, é também uma investigadora por excelência e, para tanto, requer um senso de curiosidade insaciável, determinação e sagacidade, buscados nos conhecimentos empíricos, aliados indispensáveis para situações inusitadas como esta.
“Não existe receita para ser jornalista. É preciso se interessar por gente, compreender a diversidade humana e ter prazer em observar atentamente os mecanismos de funcionamento da sociedade e de suas instituições”, diz Malu.
Voltando à missão encomendada pela agência francesa, a primeira opção foi pesquisar nos arquivos dos jornais, emissoras de TV, Internet, sos102online, jornalistas amigos, lista telefônica, lideranças comunitárias dos Alagados, escolas religiosas e no infalível Google, afinal já se diz: se o cão é o melhor amigo do homem, no século XXI o melhor amigo do jornalista é o Google.
Compulsão pelos fatos
Transformar fatos em notícias foi o que Malu Fontes, 42 anos, formada em jornalismo há dezoito anos, sempre quis fazer na vida. Essa descoberta se fortaleceu em 1986, quando se encontrava em uma das salas de necropsia do Instituto Médico Legal Nina Rodrigues, como estudante de Medicina da Escola Baiana, onde ingressou em 86, simultaneamente ao ingresso no Curso de Jornalismo da UFBA. Deu um jeito de assistir necropsias antes do semestre em que isso ocorreria e essa iniciativa foi fundamental para subsidiar sua escolha por um entre os dois cursos: “Olhava para aqueles corpos sem nenhum interesse em decifrar vísceras e identificar órgãos. O que me seduzia era a vontade de contar sob forma de notícia a trajetória que levara aquelas pessoas, muitas vezes na condição de indigentes, para aquelas mesas de aço do IML”. Abandonou a medicina e optou pelo Jornalismo, sob protestos familiares que se estendem até hoje. Diz-se viciada em informação, livros, revistas, jornais, televisão e até nos novelões da Globo. Reverencia sempre quem sabe escrever, seja quem for, como Jorge Luis Borges, o escritor argentino e o baiano Antonio Risério, poeta, escritor e antropólogo.
No episódio narrado nesse perfil, não se deixou intimidar pelo emaranhado das circunstâncias, razão da sua participação em missão tão excêntrica. Na manhã de sábado, na igreja dos Alagados, no altar, via-se um pôster amarelado com a foto do papa abraçando uma garota. Ali ficou sabendo o nome real da personagem: Lucimeire. Soube também que ela era moradora da Massaranduba e que havia estudado no Colégio São José, no bairro do Bonfim, em Salvador. O prenome significava um passo importante na total ausência de informações.
No colégio São José, através da irmã Carmelina, conheceu mais um pouco da história da garota pobre, filha de mãe solteira e que tinha onze anos quando do encontro com o Papa. Lucimeire, por seu gesto, foi presenteada pelo então Arcebispo, Dom Avelar Brandão Vilela, com uma bolsa estudos. Concluiu o segundo grau, iniciou o curso superior na Universidade Católica de Salvador – Ucsal. Com a morte do Arcebispo a bolsa foi cortada, praticamente forçando-a a interromper os estudos, que acabou concluindo com muito esforço.
Malu também não teve uma infância abastada. Nasceu na zona rural de Paripiranga/Ba, numa família de quinze filhos. “Acho que levando em contas as minhas origens, nasci para dar errado e, se reverti minha trajetória foi em função da minha paixão pelos livros”, disse. Casou-se aos dezessete anos e morou no meio da Floresta Amazônica, no Projeto Jari, um projeto multinacional implantado por uma corporação norte-americana. Teve dois filhos.
Voltando à história da garota papal: reuniu todas as informações que conseguiu apurar e, perseguindo outras, acessou a edição on-line do dia do jornal A Tarde. Encontrou uma matéria de autoria da jornalista Regina Bochichio, uma retrospectiva da vida do Papa, mencionando suas visitas a Salvador e contendo, inclusive, depoimentos aparentemente recentes da “garota do papa”, Lucimeire. Procurou a jornalista, tomou conhecimento que a matéria havia sido produzida há dois anos e que Lucimeire, quando da entrevista, estava morando em Vitória da Conquista/BA, segundo informações do fotógrafo da sucursal do jornal na cidade, a quem coube fotografá-la para a matéria de Bochichio.
Vida Acadêmica
Usando o aprendizado adquirido na vida acadêmica na Facom, onde fez a graduação, o mestrado e o doutorado, no Jornal da Bahia, onde foi repórter de Política, em A Tarde, onde trabalhou nas editorias de economia, turismo e política, na Assessoria de Comunicação Institucional da Rede Sarah de Hospitais em Salvador, onde atuou durante 10 anos, sua perspicácia como colunista, articulista, professora e palestrante em faculdades da Bahia e de outros estados, cumpriu a missão que lhe fora incumbida pela agência francesa. Chegou até uma fonte importantíssima, uma candidata a vereadora de Vitória da Conquista, Rosa, que possibilitou localizar Lucimeire: estava trabalhando na Secretaria de Ação Social da Prefeitura Municipal de Jaguaquara/BA. Conseguiu falar ao telefone com a personagem buscada pela agência e parte da missão estava cumprida.
No domingo, 3 de abril, portanto, a jornada chegava ao fim. Assim como a da Sua Santidade, o Papa, que não resistindo à enfermidade, que faleceu na tarde de 2 de abril, um dia antes do primeiro contato com Lucimeire. Informou à agência os resultados obtidos. O mistério havia sido solucionado, meu caro “Watson”. Na manhã de segunda feira, 4 de abril, a pedido da agência, alugou um carro e seguiu para Jaguaquara, encontrar Lucimeire e colocá-la em contato com a agência, que agora queria levá-la para o Vaticano, para os funerais do Papa. Ou seja, mesmo com a morte do Papa, a agência ainda mantinha interesse na personagem.
O tempo passou, repensou a vida e optou pelo ingresso na vida acadêmica. Antes de concluir o doutorado, fez outra escolha polêmica, equivalente ao abandono do curso de Medicina: pediu demissão da Rede Sarah, sob protestos dos amigos e da família, e aceitou a proposta de coordenar o curso de Relações Públicas da Faculdade de Tecnologia e Ciências. Dois anos depois, pediu demissão e aceitou o convite para ser professora das Faculdades Jorge Amado, nas disciplinas Políticas de Comunicação e Comunicação e Política. Hoje é colunista semanal do jornal A Tarde (Teleanálise), assina uma coluna quinzenal (Pelo Avesso) no site http://www.nacoco.com.br/, participa, como pesquisadora associada, da ONG Anis: Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gêneros, com sede em Brasília (http://www.anis.org.br/), da qual também é diretora da editora LetrasLivres. Organizou o livro Tópicos em Bioética, elaborou textos para as mostras Lá e Cá e Salvador Negro Amor, de Sérgio Guerra e três vezes por semana, às 18:40, faz comentários na Rádio Metrópole FM, além de assinar uma coluna mensal na Revista da Metrópole. Na Faculdade de Comunicação da UFBA, onde é professora adjunta desde agosto de 2006, após aprovação em concurso público, é responsável pelas disciplinas Oficina de Jornalismo Impresso e Temas Especiais em Jornalismo, além de integrar o grupo de pesquisas JGOL – Grupo de Pesquisa em Jornalismo On-Line, e editar o Jornal da Facom, função que assumiu recentemente.
Depois de idas e vindas, resolveu assumir a carreira acadêmica e fazer o que mais dá prazer: conciliar a rotina docente sem abandonar o jornalismo. Para Malu Fontes, fazer jornalismo é traduzir o mundo de maneira ética, não perder de vista a perspectiva de que esta é uma atividade que exige um contínuo compromisso social e levar informações de qualidade à opinião pública, o que existe uma ininterrupta formação humanística. A relação com os fatos, as infinitas possibilidades de interpretá-los é o que mais lhe estimula profissionalmente, seja como repórter, assessora, colunista, pesquisadora de comunicação ou como professora.

Segunda-feira, 23 de Julho de 2007

Laboratório de Imagens (Anizio Carvalho)


Decano do fotojornalismo baiano, Anízio Carvalho tirou foto famosa da Rainha Elizabeth II
Por Renato Marcelo Reis


Ele é o autor de uma das fotografias mais inusitadas da cobertura jornalística da visita da Rainha Elizabeth II, ao Brasil, nos anos 60 do século passado. Foi também, um dos primeiros jornalistas a documentar os restos mortais do revolucionário Carlos Lamarca, morto pela repressão da ditadura militar, em 1971, quando tentava instalar uma base do MR-8 na Bahia. Já levou quatro sustos em viagem de avião e é o primeiro baiano a receber, em vida, do Museu Afro em São Paulo, uma exposição de seus trabalhos como reconhecimento por sua importância na documentação dos costumes da cultura afrodescendente.
Decano do fotojornalismo baiano, Anízio Circuncisão de Carvalho, hoje tem 77 anos, e quase 60 de atuação na profissão de fotógrafo. Em quase seis décadas, Anízio Carvalho, como assinava suas fotos ou simplesmente “O Velho Anísio”, como é carinhosamente chamado por duas gerações de jornalistas e fotojornalistas mais jovens, clicou imagens inesquecíveis da antiga Bahia e de uma Salvador em permanente estado de transformação.
Anízio tinha um costume, fazer fotografias, além da quantidade necessária para cumprir a pauta. Foi assim que conseguiu construir boa parte de seu arquivo pessoal.
Nascido em 1930, em Conceição de Feira, a 100 km de Salvador,Anízio chegou a Salvador, com 11 anos de idade, com a determinação de vencer e, se possível, pela fotografia, que o fascinava na infância.
“Meu pai me disse que eu só ia para a Bahia, se tivesse como me sustentar e ser alguém. Não queria que eu viesse a ser como muitos, apenas senta-praça, soldados sem boa classificação”, recorda o veterano fotógrafo.
Assim que chegou a Salvador, no fim da década de 1940, foi trabalhar com o pai de um jovem que viria fazer história na fotografia baiana: Leão Rosemberg, “Deus me colocou no lugar certo”, agradece ainda hoje. Foi o início de uma cumplicidade fotográfica com a Cidade de São Salvador da Bahia, como a capital era chamada por muitos baianos.
Emocionado, Anízio mostra seus equipamentos fotográficos: duas câmeras Rolleiflex, uma Pentax, uma Nikon mecânica e uma semi-automática. Uma delas, a Rollei, modelo 6x6, recebera do próprio Rosemberg pelos tempos de serviços como chefe de laboratório, até outubro de 1957, quando foi trabalhar no Jornal da Bahia (JBª), convidado por seu fundador, o jornalista João Falcão, para criar o arquivo do jornal, inaugurado um ano depois. Foi no JBª que fez sua primeira fotografia com fotógrafo profissional, nada menos do que do Presidente Getúlio Vargas, em visita a Bahia.
Dentre outras personalidades, Anízio fotografou Irmã Dulce, Luis Eduardo Magalhães, Tancredo Neves, João Goulart, Roberto Carlos, Caetano Veloso (em sua fase hippie) Maria Bethânia, Paulo Maluf, o Major Cosme de Farias e os governadores Luiz Viana e Juraci Magalhães. “Eu mesmo revelo minhas fotografias, com as soluções preparadas por mim. É muito melhor. Se o tempo está frio, eu modifico a solução de preparo e a fotografia revelada fica com a mesma qualidade como se estivesse sido fotografada em um tempo melhor”, conta, no laboratório instalado em sua casa, na Ladeira da Cruz da Redenção, no bairro de Brotas.
Joelho Imperia
Nos anos 60, Quando a Rainha Elizabeth II visitou Salvador , Anízio conseguiu furar o cerco da rígida segurança e fotografar um dos castos joelhos de Sua Majestade Britânica. “Estávamos impedidos de fotografar a Rainha. Mas eu, muito esperto que era, furei a barreira e fiquei ali, em frente ao local que o carro oficial pararia. Como a minha câmera era uma Rollei, e com ela é possível fotografar com a câmera a altura da cintura, pendurada ao pescoço, foi possível roubar a fotografia sem demonstrar que estaria fotografando. Esperei a rainha sair. Quando ela pôs a perna para fora do veículo, apertei o botão disparador e sem saber, ainda, se tinha feito qualquer fotografia, fui questionado por um policial da guarda especial que estava ao meu lado. Ainda tentei disfarçar com uma tosse, mas parece que o militar tinha ouvido o disparar da câmera, pois perguntou se tinha feito uma foto, respondi que não”, recorda, quatro décadas depois, num tempo em que os joelhos imperiais já devem enfrentar a conspiração de uma artrite plebéia A inusitada fotografia foi publicada por centenas os jornais e revistas, da época, do Brasil e do exterior.
Recentemente, o “Velho Anízio” foi homenageado com uma grande exposição, montada sob curadoria do artista plástico baiano Emanuel Araújo, diretor do Museu Afro, em São Paulo. “Emanuel montou a exposição com 70 fotografias, todas sobre cultura afro-brasileira. São fotografias de pessoas e atividades. Enfim, um grande apanhado sobre minha vida profissional”, alegra-se Anízio.
O Museu Afro, da Diretoria de Artes Visuais da Fundação Cultural da Bahia (Funceb) também rendeu homenagem a o velho fotógrafo, com a mostra A Bahia de Anízio Carvalho, uma Bahia em Preto-e-branco vista por poucos.
Hoje, “O Velho Anízio” faz fotografias de eventos particulares — “cobro caro, mas o trabalho é de qualidade, todo em 6x6” – como casamentos, formaturas, aniversários e batizados. Porém, prepara uma boa surpresa, da qual apenas dá uma dica. “É uma coisa que estar aí mais as pessoas não se dão conta. Vou mostrar em pb e cor, é um grande projeto”, desconversa. Vamos aguardar, com ansiedade, afinal é um projeto de que transformou a própria vida num vasto laboratório de imagens.

Terça-feira, 17 de Julho de 2007

Jornalista de Cultura (Simone Ribeiro)


Simone Ribeiro se especializou no jornalismo cultural

Por Marli Santana



O mundo infantil é cercado de sonho, magia e encantamento. Então, é correto dizer que o escritor de livros infantis é alguém carinhoso, gentil e afável. Certo? Não, nem sempre. A afirmação pode causar estranhamento para alguns, mas não para a jornalista Simone Ribeiro que entrevistou a autora de livros infantis Ana Maria Machado na Bienal do Livro do Rio de Janeiro. “Eu tinha uma imagem dela, e essa imagem meio que se desfez. Era estranho ver uma pessoa que escrevia literatura infantil ser tão rude, tão ríspida em algumas respostas,” desabafa. A experiência “não muito boa” serviu como lição para a carioca de riso fácil. A jornalista colocou suas impressões na matéria e esta acabou tendo uma grande repercussão.


Apesar dessa experiência não muito agradável, em 16 anos de profissão,quatro deles com repórter do caderno de cultura diário do Jornal A Tarde de Salvador, Simone Ribeiro fez entrevistas, para ela, consideradas marcantes. Uma delas foi com o escritor baiano Jorge Amado, quem para a jornalista, “é um escritor que, antes de Paulo Coelho, era como se fosse o nosso cartão de visitas em termo de literatura no mundo.”


Apesar da importância do escritor, a hoje editora do Caderno Cultural do Jornal A Tarde, que não se diz tanto fã, acha que o autor de Gabriela, Cravo e Canela ainda não teve o valor reconhecido: “Jorge Amado, não sei, mas acho que
é um escritor que não teve ainda o seu valor merecidamente reconhecido pela academia, ficou muito associado a uma Bahia meio caricata e folclórica”, opina.

Ela acredita que falta um estudo mais aprofundado na obra de Jorge Amado. Outra pessoa com quem a jornalista teve a oportunidade de conversar foi com o velejador Amir Klink, quem ela considera uma figura excepcional, quando este passou por Salvador. “Eu acho que ele deve ter exercitado muito o equilíbrio, a tranqüilidade. Ele é muito zen”, revela.

Outra entrevista que recorda com carinho, foi com o escultor Frans Krajcberg, morador de Nova Viçosa, na Bahia. Chega a ser curiosa a forma como foi feita a entrevista. “Foi uma entrevista engraçada porque como ele na época não tinha telefone, não tinha celular, então a entrevista foi marcada por um intermediário. Eu tive de esperar ele me ligar de um orelhão (risos)”, Ah, resta falar que o escultor, um polonês naturalizado brasileiro, tinha um sotaque forte.


Ainda falando de entrevistas, uma pessoa que Simone Ribeiro gostaria de entrevistar, é Paulo Coelho. Antes que alguém pensa que ela é fã do escritor, ela avisa: “Eu, particularmente, não gosto de Paulo Coelho. Eu queria entender um pouco desse sucesso todo que ele faz.” Diante da resposta, a pergunta que não quer calar: “Porque você não gosta dele?” A resposta trouxe uma surpresa.“Olha, alguns livros que eu li dele, eu encontrei erros, por exemplo, de português. O Alquimista, por exemplo, eu não consegui chegar à metade do livro porque acho inadmissível um livro de literatura sair com erro de português,” aponta. Depois continua “E alguns temas que ele aborda, aborda de maneira superficial. Não me atraí muito.” Apesar disso, Simone informa que ele é jornalisticamente interessante.


Antes de se formar pela Ufba em 1991, a jornalista, que deu o primeiro choro em 1968, na cidade do Rio de Janeiro, cursou arquitetura, mas demorou apenas seis meses para descobrir que aquela “não era a sua praia” . Em 1983 veio para a Bahia, terra da sua família. Em 1993 chegou ao Jornal A tarde. Lá passou rápido pela editoria de cidade, para logo em seguida ir para o Caderno 2, o caderno de cultura diário, onde ficou como repórter, algumas vezes chegando a substituir a editora.

Antes de assumir a editoria do Caderno Cultural do Jornal A Tarde, Simone foi repórter do suplemento durante três anos. Antes, porém, em 1997, editou, na Gazeta Mercantil um caderno que “tinha um pouco de tudo: cidade, economia, política e cultura.” A experiência durou oito meses. Depois ficou um pouco afastada do jornal, só retornando ao Jornal A Tarde em 2000. Em 2003 assumiu a editoria do Caderno Cultural.


São 15 anos de Caderno Cultural, nas palavras da editora, “um fenômeno raro no país.” Segundo Simone, o Caderno Cultural quer ser mais denso, mais reflexivo, formador de opinião. No entanto se depara com algumas dificuldades: “Eu acho que aqui, em Salvador, na Bahia, está faltando gente que pense e escreva sobre cultura,” revela. Ela acha que o aluno de jornalismo sai com “uma formação cultural muito aquém do que se espera.” Ela informa que tem muita gente que escreve produção ficcional, como conto, poemas. Mas questiona: “Onde está a intelectualidade mesmo de quem escreve.”?


Uma preocupação de quem trabalha com o jornalismo cultural, é o chamado jornalismo de agenda, no qual os Cadernos de Cultura estão a serviço da agenda cultural, das assessorias. Mas Simone se sente um pouco “protegida” desse assédio pelo fato de não ser editora de um caderno diário, então não se pauta muito pelo factual, mas, sim, pelo que é bom. Ela acredita que é preciso o jornalista andar mais pelas ruas para ver o que está sendo produzido. A jornalista revela uma preocupação: “Uma coisa que me dá medo, por exemplo, é ver jornalista de cultura só dentro da redação, só no telefone, só vendo e-mail, só olhando a internet.”

A todo o momento surge na mídia um novo produto cultural, mas nem sempre de qualidade. Diante de tantas opções, como separar o joio do trigo? No Caderno cultural, a literatura tem um espaço maior, mas artes plásticas, artigos sobre cinema, história também têm seus lugares garantidos. Nada de segregação.

À frente da editoria do Caderno Cultural há quatro anos, Simone deseja que este se torne mais popular, no sentido de ser lido por mais pessoas, principalmente pelos jovens. “Eu gostaria muito que o Cultural fosse um caderno lido pela juventude, pelos universitários. Não ficasse apenas restrito, por exemplo, as pessoas de 40, 50 anos,”. O interesse justifica-se pois, segundo ela, houve uma época em que o suplemento foi identificado como um caderno da elite acadêmica.


Simone diz gostar de um pouco de cada coisa. Gosta mais de cinema do que de dança, gosta de teatro, artes plásticas, exposições, músicas. O estilo de música que prefere é a MPB. Seus artistas favoritos? Chico Buarque (ridos), pelo visto ela também se rendeu aos olhos azuis do artista, e Marisa Monte, inclusive revela que esteve nos dois últimos shows da artista em Salvador. A repórter, que por hora escreve, informa que também esteve presente em uma das três apresentações da artista, em janeiro deste ano.

Quando o assunto é filme, a jornalista prefere os dramas e os filmes históricos. Um dos filmes que assistiu foi Maria Antonieta, de Sophia Coppola. Segundo Simone, o filme tem um filme surpreendente, parece inacabado.Agora, quando se trata de livros, diz não ter muito preconceito. “Eu sou muito curiosa, então eu acabo, meio que, querendo abarcar o mundo. E é assim, muito livro em volta de mim (risos).”

Agrada-lhe também a releitura de livros. Aproveita o assunto para dar uma dica:”Grande Sertão: Veredas, por exemplo, de Guimarães Rosa, eu acho que é um livro para se ter, assim, na cabeceira e para você reler sempre.” Um outro gênero que curte é a poesia, pois acha que esta não se esgota nunca. “Cada leitura de poesia é uma leitura diferente, uma imagem diferente,” revela.

“Um dos últimos livros que leu?” Antes da resposta, uma pausa, seguida de uma respiração.Simone informa que leu o livro de crônica do Arnaldo Jabor, livro esse que no momento não se lembra o nome. Leu também o Livreiro de Cabul,na tentativa de descobrir porque os livros que tratam do oriente médio estão sendo tão consumidos ultimamente.”O oriente está muito na moda, né?”, finaliza.
















Vocação Precoce (Katia Borges)


Ainda criança,a jornalista e poeta Kátia Borges
já brincava de fazer reportagem

Vanessa Ive

Enquanto a diversão das outras crianças era colecionar figurinhas e preencher álbuns, a da menina Kátia, dona de mãos pacientes e rosadas, era colecionar reportagens policiais, montar os fatos e os narrar com o gravador que o pai dera – um presente talvez inspirado num presságio da futura profissão da filha. Com apenas 10 anos, Kátia Borges, hoje editora do suplemento Revista da TV do Jornal A Tarde e poeta, já demonstrava as aptidões jornalísticas e conquistava a fama de ser a “Sandra Passarinho” da família, a primeira correspondente brasileira de TV e referência no jornalismo dos anos 70.
A descoberta da paixão pelos fatos ainda na infância facilitou as escolhas de Kátia que venceu a excessiva timidez pela vontade de seguir o caminho da comunicação. Formou-se em Jornalismo, em 1994, pela Universidade Federal da Bahia e o seu primeiro trabalho foi o de repórter na editoria de polícia, no Jornal Correio da Bahia. No mesmo ano, foi convidada pelo Jornal A Tarde para trabalhar no Caderno 2 e, em 2002, assumiu o cargo de editoria da Revista da Tv.

Começar pela área de polícia foi uma coincidência aprazível para a jornalista que, desde cedo, descobriu o gosto pela ficção mais sombria, a exemplo dos romances policiais de Edgar Allan Poe e James Elroy. Como repórter policial, Kátia desenvolveu os “jogos de cinturas” necessários para contornar os improvisos do mundo factual e ainda, aguçou a curiosidade jornalística. Incorporada neste espírito, a jornalista viveu uma experiência gratificante. Viajou para Feira de Santana, em 1995, para presenciar a prisão de Fernando Pareja, jovem de 21 anos que conquistou notoriedade por driblar policiais de três estados durante uma fuga cinematográfica. A viagem não tinha compromisso profissional, ainda assim, Kátia foi encaminhada para fazer um perfil e uma reportagem sobre o bandido. “Foi legal porque eu vi as coisas acontecendo e sentir uma adrenalina inesquecível”.

Entre sorrisos e olhares reticentes, Kátia recorda o momento mais constrangedor na profissão e conta, com as leais faces ruborizadas, do dia que cobriu o enterro de uma mãe-de-santo. “Todos estavam de branco como é o costume. Eu era a única pessoa de preto e ainda com a roupa cheia de desenhos de caveirinhas. Foi muito constrangedor. Tive que saí me desculpando das pessoas.”
“Abelha rainha”- As madeixas loiras formam um degradê com o castanho forte dos olhos. Kátia tem um olhar repousante, que divaga enquanto ouve, e um semblante sereno, porém é apática e breve nas palavras, com expressões que ocultam o seu pensamento. “Eu sou do tipo que parece. Insensível. Eu pereço no meu modo de parecer”, confessa no seu blog mmeka.blogspot.com. Na verdade, Kátia é como um relicário de abelhas, em alusão ao título do seu livro de poesias “De volta as caixas de abelhas”. No começo parece indiferente e receosa. Afasta. Mas em seguida, revela-se sensível e afável. Encanta. “Depois, deixo que minha sensibilidade diga se vale o investimento. Num olhar, num sorriso, numa palavra mais demorada. É raro se dar”, completa no blog.

“Considero-me uma pessoa abençoada por desde o início saber o que queria para mim. Escrever.” A veia poética de Kátia manifestou-se aos seis anos de idade, quando produziu as primeiras poesias. Entretanto, ao conhecer grandes poetas como Manuel Bandeira e Cecília Meireles, menospreza e queima as suas produções literárias, na adolescência. A poesia só retorna à vida de Kátia, tempos depois, como refúgio da doença do pai, diagnosticado com câncer. “Isso fez com que eu voltasse para infância e novamente escrevesse poesias”. “De volta a caixa de abelhas” é fruto deste reencontro. Um livro que embora o amor pelo pai tenha sido a principal inspiração, não há nenhuma poesia dedicada em especial a ele. “Porque, na verdade, todo o livro faz referência a meu pai, de modo abstrato”, explica.

A palavra é o lugar de encontro entre o jornalismo e a poesia no cotidiano de Kátia Borges. Talvez, mais que isso, um alimento, um vício. “Escrever é imposto na sua vida e você não tem como escapar. No meu caso, eu não quero escapar”, disse em entrevista ao jornalista Carlos Ribeiro, no Jornal A Tarde, em 2002. Esta paixão de Kátia pelo que faz, atribuiu-a feições particulares no universo poético e jornalístico.

Para Sylvia Plath, referência principal nas poesias de Kátia, “aos olhos dos outros, um homem é poeta se escreveu um bom poema”. De modo semelhante, a jornalista diz que: “Eu não me digo poeta. Quem me lê, me diz poeta”.

Nesta concepção, os leitores têm feito de Kátia Borges uma grandiosa escritora. “Tive uma grata surpresa quando soube de seis blogs de pessoas que não conheço e que, no entanto, divulgam poemas meus”. O poema “Amor” é o preferido na blogsfera: “Por todo o caminho, te levo comigo, como quem carrega o próprio coração nas mãos, pulsando (...)”

Coração militante (José Carlos Peixoto)


José Carlos Peixoto faz do ensino e do jornalismo uma profissão de fé no socialismo

Por Carla Farias Gomes

Trotskista de formação, o jornalista e professor José Carlos Peixoto Júnior, Zeca como é chamado pelos mais próximos, tem a militância política correndo no sangue. Em casa, ele conviveu com as verdades e os dogmas da esquerda. Afinal, seu pai, o engenheiro agrônomo José Carlos Peixoto, foi militante do Partido Comunista Brasileiro, o famoso “Partidão”. O pai apoiava o filho militante precoce no ensino secundário no Colégio Ypiranga, em Salvador. Prova de que a política esta mesmo no DNA de Zeca, é que, com apenas 16 anos, ele se filiou a Ação Popular Marxista Leninista (APML), uma facção radical da esquerda.
Aos 18 anos, o jovem militante prestou vestibular, e sua escolha não fugiu muito a suas características peculiares. Simpatia com a área de Ciências Humanas e Sociais, dom para a escrita e o fascínio pela fotografia. Sua primeira universidade foi no curso de Ciências Sociais na Universidade Federal da Bahia (UFBA), cursou um semestre, logo após foi aprovado em Jornalismo na UNICEUB, em Brasília, onde morou por 18 anos, estabeleceu suas duas primeiras relações amorosas estáveis, e teve suas primeiras experiências com a profissão de jornalista.
O gosto pelas discussões políticas e pela polêmica, desse baiano de Itabuna, nascido em 7 de julho de 1963, é transmitido na sala de aula. Ele se insere entre todas as potencialidades dos meios de comunicação: interage, informa, aprimora, capacita, e além disso, desenvolve o senso crítico. Não é a toa que a disciplina que o jornalista prefere ensinar é “Comunicação e Política”, nas Faculdades Jorge Amado.
Zeca morou um ano e meio na sua cidade natal com seus pais. A família se mudou para Salvador onde o rapaz viveu até passar no vestibular, em Brasília. A educação infantil ele completou no Colégio Rabelo, seguindo depois para os Maristas e, por último no Colégio Ypiranga, localizado na Rua Sodré, considerado por ele um colégio alternativo devido à quantidade de músicos e hippies que lá estudavam, onde iniciou sua vida mais atuante politicamente.
Contra o fim da História
Hoje, o jornalista é petista de carteirinha e mantém um discurso, que funciona como uma espécie de tribuna de suas idéias, de esquerda e radical. Admirador do cubano Fidel Castro e do venezuelano Hugo Chaves, Zeca é um daqueles militantes que a gente acreditava só existir nos anos 60. Um livro de cabeceira? O professor aponta a trilogia biográfica do revolucionário russo Leon Trotsky, escrita por Isaac Duestcher.
Em meio a causas políticas, Zeca exerce sua profissão com dignidade e articula na Bahia uma grande luta pela Guarda Compartilhada. Ele defende a tese do Pai Legal, pais que buscam o bem-estar do seu filho e a guarda conjunta após a separação. Zeca costuma se indignar com a decisão judicial de que a guarda do filho de pais separados é direito exclusivo das mães. Por isso é contra esse tipo de argumento e a favor da saúde psicológica e física dos filhos.
No Jornal de Brasília foi repórter por um ano e meio na editoria de polícia. Após um tempo de experiência nas redações conseguiu aproximar-se da sua área de interesse, a política. Foi contratado pela Radiobras, que noticiava as informações do Congresso Nacional. Passou a fazer matérias para a TV Nacional, onde ficou cinco anos dividindo-se entre a rádio e a TV. Zeca também produziu matérias para a editoria de política do Correio Braziliense, durante três anos. Além disto, produzia notícias para a Agência Sonhe Letras e prestava serviços o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Mas, surgiu uma oportunidade de exercer o cargo de assessor de imprensa do Incra na Bahia em 2001. Ele aceitou o emprego e voltou para sua terra.
Os momentos mais marcantes da sua carreira foram entrevistas com pessoas interessantes e atraentes. Para o Correio Braziliense, entrevistou Serginho Groisman, que ele considera um homem inteligente. O Médium Espírita Divaldo Franco, segundo Zeca, também concedeu uma entrevista que o marcou muito. “Foi uma experiência forte e bonita”, define o jornalista. Já ao entrevistar Juca Chaves, para o Correio da Bahia, Zeca se divertiu com as piadas e o bom-humor do humorista. “Ri muito. Foi uma experiência divertida”, recorda.
Zeca dedica de doze a treze horas do seu dia ao trabalho e mais uma a duas horas para atividades físicas. Nos momentos de lazer, gosta de ler, assistir um documentário, ir ao cinema, e também – ninguém é de ferro- tomar uma cerveja gelada, de preferência, numa mesa de madeira, regado a tira-gosto e assistindo uma boa partida de futebol, se possível do seu time do coração, o Esporte Clube Bahia. “Piazão”, Zeca não dispensa as brincadeiras com o filho Davi, segundo o pai coruja, um dos seus maiores presentes.
Com certo ar de resignação, Zeca se refere ao jornalismo baiano, como bobo, pequeno e sem força. Não vê aprofundamento, nem discernimento de informações relevantes, nem a construção de um jornalismo digno e verídico. Abomina a falta de informação no jornalismo, “ele não informa, deforma.”.
Os desejos profissionais de Zeca circulam entre suas ideologias e conceitos construídos ao longo de sua vida. Ele demonstra saudade do jornalismo diário, das redações, da apuração, das revelações, sente desejo de ser editor de política ou coordenar o núcleo da Agecom, a Assessoria Geral de Comunicação do Governo do Estado da Bahia.
Tricolor nato, pai coruja, esquerdista declarado, num tempo em que já se declarou, inúmeras vezes a morte das utopias e até o fim da História, como se, com esses mitos se pudessem decretar também o fim do mundo e da luta de classes,José Carlos Peixoto Junior, é, acima de tudo, um coração militante.

Sexta-feira, 13 de Julho de 2007

Duro na queda (Erival Guimarães)


Erival Guimarães escapou de queda de avião e ameaças de bandidos


Por Rafael Sena

Ele já escapou de um avião em chamas, enfrentou ameaças de morte de traficantes, de bicheiros, bandidos e policiais corruptos e, como um detetive obstinado, nunca perdeu o ânimo de investigar. De aparência calma, gestos tranqüilos, fala mansa e pausada, Erival Guimarães, atual editor de segurança do Correio da Bahia, acumula em sua biografia experiências intrínsecas a um policial; vida de quem se prestou a desbaratar injustiças e ações ilícitas com investigações; vida de repórter policial.
Poderia não ser assim. Se não tivesse abandonado o curso de direito na Universidade Federal da Bahia e adentrado em jornalismo, na mesma universidade, estaria, talvez, com uma vida mais mansa e rentável. Mas o destino, mestre em reviravoltas, o fez jornalista. Erival iniciou a jornada nas redações desde cedo, ainda estudante, no cargo de revisor da Tribuna da Bahia. “Era um cargo importante, tinha contato com todas as matérias do jornal. Não existe mais”, lamenta. Foram três anos e meio na função até ser convidado para a editoria de polícia do Correio, como repórter. Pouco depois virou repórter especial. Logo entrou em evidência. Virou assunto no Jornal Nacional por dois dias seguidos. Não fez nenhuma matéria esplêndida, nem ganhou o melhor prêmio de jornalismo. O avião que o transportava, juntamente com uma equipe de reportagem do Correio e outra da TV Bahia, caiu na cidade de Bom Jesus da Lapa. “Íamos atrás de um acidente que ocorreu com um caminhão de romeiros da Bahia a caminho de Brasília. Todos morreram. Fomos de avião. Sobreviver foi um milagre”, conta, porém, expondo as marcas do desastre nos braços. No jornal A Tarde, onde emprestou seu talento por seis anos, Erival deu seus passos mais largos, se insurgindo contra o submundo das drogas e do jogo do bicho. Diz, com orgulho: “Fui o primeiro a fazer matéria sobre Raimundão, o Ravengar. Subi a favela do alto do retiro e denunciei o tráfico. Depois ele apareceu lá na redação com dois seguranças ordenando que eu me retratasse. Discuti com ele. Fui ameaçado de morte. Foi um sufoco” disse. Erival também sobrepujou traficantes de cocaína quando quis provar a um policial que o pó tinha mais cancha que a maconha na cidade, já que este se viciou em enquadrar “Zé Mané” portando um cigarrinho ou outro da erva. Para esta empreitada, Erival disfarçou-se de “sacizeiro”, flanando por três dias na praia do Porto da Barra, até familiarizar-se com Cláudio Mariane conhecido como Diabo Loiro, e seus comparsas. “No dia que ia escrever sobre o assunto, por telefone, a portaria me diz que alguém me esperava na entrada. Um cara que nunca vi na vida, mas dizia que Cláudio (Mariane) estava à minha espera, que queria urgentemente falar comigo. Dizia que Cláudio havia dado um carro para um policial e iria também me dar um veículo . Insistiu muito, mas recusei. Então ele mandou segurar minha onda. Gelei na hora. Voltei para a redação nervoso, fumando um cigarro atrás do outro. Mas resolvi escrever a matéria. Eis que meu telefone toca. Era o mesmo cara. Ele falou uma coisa inusitada. Quando eu usei o argumento de que estava ocupado, escrevendo uma matéria, ele disse saber que eu não tinha começado a escrever o texto ainda. Tive a certeza de que alguém dentro da redação passava todas as informações para ele. Senão como ele ia me descobrir jornalista, que trabalhava no A Tarde, o telefone que ligava a mim e que eu não tinha começado a matéria ainda? Ele disse depois que iria me metralhar quando saísse do jornal. Foi aí que tremi”, revelou.
Erival conta que neste dia não tinha dinheiro para mais nada além da passagem de ônibus contada para o Barbalho, bairro onde crescera e reside até hoje. E também o horário: passava das nove da noite. “Tive que andar do jornal até a Estação Rodoviária para pegar o ônibus. Eu fui tremendo, sozinho pela rua. Todo carro que passava era um susto e pensava que ia morrer.”, disse. Bicho solto - Seu triunfo maior, segundo sua própria avaliação, foi ter investigado e denunciado os “chefões” do jogo do bicho, que promoviam assassinatos em série contra aqueles que ameaçavam seu império. Erival, de fato, foi uma ameaça. Mas por pouco não compartilhou do mesmo destino de outras dezenas. Credita ao futebol, da juventude, a chance de poder atrapalhar os planos dos bicheiros baianos. “Era futebol de rua. Alguns que jogavam bola comigo naquela época mais tarde se tornariam seguranças, inclusive desses bicheiros. Deste modo, eu tinha fontes privilegiadas”. Os bicheiros logo puseram um capanga para vigiar seus passos. Certa vez, o capanga circulava de madrugada pelas ruas do Barbalho, próximo à residência de Erival. “Fui acordado por alguém que batia a minha porta. Era Zéu, um dos amigos do futebol e segurança de bicheiro. Ele me dizia para cair fora porque o capanga ia me matar. Rapidamente, liguei para um delegado amigo meu e expliquei a situação. Ele disse que poderia dar um fim no capanga, mas eu disse que não. Logo depois peguei um táxi e fui para o A Tarde. De lá, liguei para a ‘Paratodos’ e disse que se algo acontecesse comigo todo mundo iria ficar sabendo. Foi imediato. Minutos depois eles me retornaram dizendo que o capanga já tinha ido embora e não me importunaria mais”, contou. Em 1997, foi convidado a dirigir a editoria de segurança do Correio da Bahia, até então inexistente. Implantou novas políticas no trato com os personagens, aboliu palavras pejorativas e fotos chocantes. Ainda está por lá, cedendo seu talento aos repórteres de novas gerações. “Já fiz muita coisa”, diz. Talvez, aos 49 anos, não tenha o mesmo pique e a mesma energia de outrora. Mas nada o satisfaz mais do que as investigações jornalísticas. “É gratificante quando o seu trabalho faz justiça”, afirma.
Ganhou destaque, prestígio. Foi considerado o melhor repórter policial da Bahia. A reboque vieram as ameaças, as perseguições, as noites sem dormir. Porém, nada disso o desnorteou. Corajoso, era indiferente às investidas de pistoleiros, bandidos, policias corruptos, militares, traficantes, bicheiros, enfim, dos que tinham o azar de cair em sua linha de investigação. A derrocada era certa.


MOVIDO A PAIXÃO (Paixão Barbosa)


Depois de 30 anos de profissão, Paixão Barbosa mantém o mesmo entusiasmo pelo jornalismo
Por Diana Palmeira

Barbosa não consegue esconder a paixão pelo jornalismo e muito menos o entusiasmo pelos trabalhos que realizou em três décadas de ofício. Arrependimento? “De forma alguma, faria a mesma opção,se tivesse que retroceder no tempo ”, responde o jornalista Paixão Barbosa, formada em 1980, pela então Escola de Comunicação e Biblioteconomia (EBC), hoje Facom, da Universidade Federal da Bahia. Para ele, o mais fascinante na profissão é a capacidade — através de um trabalho honesto — de interferir na realidade, transformar situações e contribuir para a melhoria da sociedade. Frustração? “Talvez pelo fato de a profissão de jornalista ainda ser alvo de muitos preconceitos e de definições errôneas”, lamenta Paixão.
Ele atua na área de comunicação desde 1977, quando assumiu a função de revisor do jornal A Tarde, passando depois a repórter da editoria de cidade, repórter, subeditor e editor de política, editor de cidade, da primeira página e secretário-de-redação e planejamento. Em abril deste ano, assumiu o desafio de implantar e estruturar a Agência de Notícias A Tarde, da qual é coordenador. Paralelo a atividade no jornal, Paixão Barbosa fez matérias para a a revista Veja, Relatório Reservado e o jornal Retratos do Brasil, já extinto.
Para os jornalistas, sobretudo os iniciantes, ele tem um conselho na ponta da língua: “Nunca deixem de acreditar no seu potencial, pois não há obstáculos intransponíveis. Qualifiquem-se e encarem os desafios com otimismo, perseverando, mesmo quando tudo parecer estar contra você”.
REPRESSÃO NAS RUAS
Recém-saído da faculdade, Paixão Barbosa enfrentou, em plena ditadura militar, a auto-censura dos jornais, imposta pelos proprietários das empresas de comunicação receosos em melindrar os usurpadores do poder ou simplesmente para agradá-los. Ele lembra que, embora a censura prévia já houvesse sido revogada, muitos jornais evitavam determinados assuntos, com medo da repressão. Foi nestes tempos de chumbo que o jovem jornalista consolidou a convicção de que “a liberdade de imprensa é essencial ao exercício da cidadania e fundamental a qualquer país, pois, sem ela, os cidadãos ficam à mercê das versões criadas para encobrir os fatos e não podem se defender dos poderosos de plantão”.
“Sempre reagi contra qualquer tipo de mordaça, procurando não me auto-censurar e tentando forçar os limites, fazendo matérias e reportagens sem me preocupar a quem iria agradar ou desagradar. Deixei esta restrição para os que se preocupam com a auto-censura”, diz o jornalista.
Hoje com os cabelos grisalhos e encaracolados, os olhos castanhos escondidos atrás dos óculos de grau, paixão Barbosa relembra de uma reportagem marcante, que calou fundo na alma do jovem repórter, por reproduzir um ato brutal da ditadura militar: a repressão policial a uma passeata estudantil, proibida pelas autoridades, durante uma greve na Universidade Federal da Bahia, no começo dos anos 80. O que deveria ser um protesto pacífico, acabou em pancadas, distribuídas a torto e a direito, pelos prepostos da repressão, nua rua principal do bairro do Tororó e na Avenida Joana Angélica, no centro de Salvador.
“Acompanhei tudo desde o início. Sofri com as bombas de gás lacrimogêneo e tive que correr dos policiais, para também não apanhar, afinal, tinha cabelos grandes e barba e ainda me parecia com um estudante”, conta Paixão Barbosa.
Naquele dia, após mais de 12 horas de trabalho, ele deixou a redação do jornal por volta das duas da madrugada, cansado, mas satisfeito por haver escrito uma reportagem de página inteira, denunciando a violência policial. Toda a matéria foi escrita, com paixão e ainda sob o impacto da forte emoção nas ruas, mas mantendo a precisão e o equilíbrio necessários ao bom jornalismo.
Esse jornalista apaixonado também pela política e pela história, tem um velho sonho de repórter, impossível de ser realizado: entrevistar o Marechal Deodoro da Fonseca. “Só assim, poderia conhecer detalhes de uma situação-limite, que revela um pouco de como a história acontece no Brasil e pode ajudar a explicar um pouco das características da vida nacional”, explica Paixão Barbosa.