
Jornalista e professora universitária, Malu Fontes tem autêntica compulsão por notícias.
Por Neusa Andrade
neusa_nma@yahoo.com.br
Investigadores da literatura de ficção, como Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle e o Inspetor Maigret, de Georges Simenon, certamente ficariam perplexos com os relatos de uma investigação “cabeluda” no senso comum. Um desses casos complicados foi solucionado pela jornalista Malu Fontes, também professora, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA.
Dentre tantas experiências, na vida acadêmica ou profissional dessa jornalista, que há dezoito anos atua na área, formada pela Faculdade de Comunicação da UFBA, esta merece ser reportada: “Missão quase impossível”. Descobrir o paradeiro, o telefone e fotografar a garota que, em 1980, para entregar um barquinho de madeira, furou o bloqueio da segurança do papa João Paulo II, quando este visitava a Igreja dos Alagados, em Salvador.
Com o agravamento da doença do papa João Paulo II, em 1995, todas as mídias se reportavam à trajetória do pontífice. A agência de fotografia francesa, Gamma Press, a mesma que havia feito a foto da menina nos Alagados, em 1980, precisava de um jornalista no Brasil para identificar, localizar a garota e fotografá-la, na mesma igreja, antes da morte de João Paulo II, que era iminente. Malu nada sabia da garota.
O contato com a agência francesa foi feito no dia 1º de abril de 2005, por intermédio de um jornalista brasileiro que vive em Paris trabalhando para a Gamma e que lhe enviou, via e-mail, a foto da menina abraçada ao Papa. Comparando as investigações realizadas nos diversos filmes de Hitchcock e Holmes, esta história nada tinha de elementar com aquelas. Nesses, as pessoas têm nome, endereço e profissão. No caso investigado, nenhuma pista foi dada. Nem sequer o nome correto da garota a agência tinha. Talvez só indo buscar ajuda no tarô, nos búzios, nos orixás, nos santos, etc. Porém, uma boa jornalista, é também uma investigadora por excelência e, para tanto, requer um senso de curiosidade insaciável, determinação e sagacidade, buscados nos conhecimentos empíricos, aliados indispensáveis para situações inusitadas como esta.
“Não existe receita para ser jornalista. É preciso se interessar por gente, compreender a diversidade humana e ter prazer em observar atentamente os mecanismos de funcionamento da sociedade e de suas instituições”, diz Malu.
Voltando à missão encomendada pela agência francesa, a primeira opção foi pesquisar nos arquivos dos jornais, emissoras de TV, Internet, sos102online, jornalistas amigos, lista telefônica, lideranças comunitárias dos Alagados, escolas religiosas e no infalível Google, afinal já se diz: se o cão é o melhor amigo do homem, no século XXI o melhor amigo do jornalista é o Google.
Compulsão pelos fatos
Transformar fatos em notícias foi o que Malu Fontes, 42 anos, formada em jornalismo há dezoito anos, sempre quis fazer na vida. Essa descoberta se fortaleceu em 1986, quando se encontrava em uma das salas de necropsia do Instituto Médico Legal Nina Rodrigues, como estudante de Medicina da Escola Baiana, onde ingressou em 86, simultaneamente ao ingresso no Curso de Jornalismo da UFBA. Deu um jeito de assistir necropsias antes do semestre em que isso ocorreria e essa iniciativa foi fundamental para subsidiar sua escolha por um entre os dois cursos: “Olhava para aqueles corpos sem nenhum interesse em decifrar vísceras e identificar órgãos. O que me seduzia era a vontade de contar sob forma de notícia a trajetória que levara aquelas pessoas, muitas vezes na condição de indigentes, para aquelas mesas de aço do IML”. Abandonou a medicina e optou pelo Jornalismo, sob protestos familiares que se estendem até hoje. Diz-se viciada em informação, livros, revistas, jornais, televisão e até nos novelões da Globo. Reverencia sempre quem sabe escrever, seja quem for, como Jorge Luis Borges, o escritor argentino e o baiano Antonio Risério, poeta, escritor e antropólogo.
No episódio narrado nesse perfil, não se deixou intimidar pelo emaranhado das circunstâncias, razão da sua participação em missão tão excêntrica. Na manhã de sábado, na igreja dos Alagados, no altar, via-se um pôster amarelado com a foto do papa abraçando uma garota. Ali ficou sabendo o nome real da personagem: Lucimeire. Soube também que ela era moradora da Massaranduba e que havia estudado no Colégio São José, no bairro do Bonfim, em Salvador. O prenome significava um passo importante na total ausência de informações.
No colégio São José, através da irmã Carmelina, conheceu mais um pouco da história da garota pobre, filha de mãe solteira e que tinha onze anos quando do encontro com o Papa. Lucimeire, por seu gesto, foi presenteada pelo então Arcebispo, Dom Avelar Brandão Vilela, com uma bolsa estudos. Concluiu o segundo grau, iniciou o curso superior na Universidade Católica de Salvador – Ucsal. Com a morte do Arcebispo a bolsa foi cortada, praticamente forçando-a a interromper os estudos, que acabou concluindo com muito esforço.
Malu também não teve uma infância abastada. Nasceu na zona rural de Paripiranga/Ba, numa família de quinze filhos. “Acho que levando em contas as minhas origens, nasci para dar errado e, se reverti minha trajetória foi em função da minha paixão pelos livros”, disse. Casou-se aos dezessete anos e morou no meio da Floresta Amazônica, no Projeto Jari, um projeto multinacional implantado por uma corporação norte-americana. Teve dois filhos.
Voltando à história da garota papal: reuniu todas as informações que conseguiu apurar e, perseguindo outras, acessou a edição on-line do dia do jornal A Tarde. Encontrou uma matéria de autoria da jornalista Regina Bochichio, uma retrospectiva da vida do Papa, mencionando suas visitas a Salvador e contendo, inclusive, depoimentos aparentemente recentes da “garota do papa”, Lucimeire. Procurou a jornalista, tomou conhecimento que a matéria havia sido produzida há dois anos e que Lucimeire, quando da entrevista, estava morando em Vitória da Conquista/BA, segundo informações do fotógrafo da sucursal do jornal na cidade, a quem coube fotografá-la para a matéria de Bochichio.
Vida Acadêmica
Usando o aprendizado adquirido na vida acadêmica na Facom, onde fez a graduação, o mestrado e o doutorado, no Jornal da Bahia, onde foi repórter de Política, em A Tarde, onde trabalhou nas editorias de economia, turismo e política, na Assessoria de Comunicação Institucional da Rede Sarah de Hospitais em Salvador, onde atuou durante 10 anos, sua perspicácia como colunista, articulista, professora e palestrante em faculdades da Bahia e de outros estados, cumpriu a missão que lhe fora incumbida pela agência francesa. Chegou até uma fonte importantíssima, uma candidata a vereadora de Vitória da Conquista, Rosa, que possibilitou localizar Lucimeire: estava trabalhando na Secretaria de Ação Social da Prefeitura Municipal de Jaguaquara/BA. Conseguiu falar ao telefone com a personagem buscada pela agência e parte da missão estava cumprida.
No domingo, 3 de abril, portanto, a jornada chegava ao fim. Assim como a da Sua Santidade, o Papa, que não resistindo à enfermidade, que faleceu na tarde de 2 de abril, um dia antes do primeiro contato com Lucimeire. Informou à agência os resultados obtidos. O mistério havia sido solucionado, meu caro “Watson”. Na manhã de segunda feira, 4 de abril, a pedido da agência, alugou um carro e seguiu para Jaguaquara, encontrar Lucimeire e colocá-la em contato com a agência, que agora queria levá-la para o Vaticano, para os funerais do Papa. Ou seja, mesmo com a morte do Papa, a agência ainda mantinha interesse na personagem.
O tempo passou, repensou a vida e optou pelo ingresso na vida acadêmica. Antes de concluir o doutorado, fez outra escolha polêmica, equivalente ao abandono do curso de Medicina: pediu demissão da Rede Sarah, sob protestos dos amigos e da família, e aceitou a proposta de coordenar o curso de Relações Públicas da Faculdade de Tecnologia e Ciências. Dois anos depois, pediu demissão e aceitou o convite para ser professora das Faculdades Jorge Amado, nas disciplinas Políticas de Comunicação e Comunicação e Política. Hoje é colunista semanal do jornal A Tarde (Teleanálise), assina uma coluna quinzenal (Pelo Avesso) no site http://www.nacoco.com.br/, participa, como pesquisadora associada, da ONG Anis: Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gêneros, com sede em Brasília (http://www.anis.org.br/), da qual também é diretora da editora LetrasLivres. Organizou o livro Tópicos em Bioética, elaborou textos para as mostras Lá e Cá e Salvador Negro Amor, de Sérgio Guerra e três vezes por semana, às 18:40, faz comentários na Rádio Metrópole FM, além de assinar uma coluna mensal na Revista da Metrópole. Na Faculdade de Comunicação da UFBA, onde é professora adjunta desde agosto de 2006, após aprovação em concurso público, é responsável pelas disciplinas Oficina de Jornalismo Impresso e Temas Especiais em Jornalismo, além de integrar o grupo de pesquisas JGOL – Grupo de Pesquisa em Jornalismo On-Line, e editar o Jornal da Facom, função que assumiu recentemente.
Depois de idas e vindas, resolveu assumir a carreira acadêmica e fazer o que mais dá prazer: conciliar a rotina docente sem abandonar o jornalismo. Para Malu Fontes, fazer jornalismo é traduzir o mundo de maneira ética, não perder de vista a perspectiva de que esta é uma atividade que exige um contínuo compromisso social e levar informações de qualidade à opinião pública, o que existe uma ininterrupta formação humanística. A relação com os fatos, as infinitas possibilidades de interpretá-los é o que mais lhe estimula profissionalmente, seja como repórter, assessora, colunista, pesquisadora de comunicação ou como professora.





